O indicador não estava aprovado

Uma newsletter, dez pessoas segurando um celular e um pedido de desculpas pela anatomia humana.

Naquela segunda-feira, descobri que uma aprovação de sexta não necessariamente sobrevive ao fim de semana.
A newsletter estava pronta. Aprovada. Podia seguir sua vida normal de newsletter, levando notícias da empresa a pessoas que talvez abrissem o e-mail. Eu também tinha planos modestos para a manhã: começar o expediente e trabalhar no que ainda precisava ser feito. Uma ingenuidade, reconheço.
A cliente devolveu a peça chamando a arte de grotesca. GROTESCA.
Fui procurar o desastre. Havia uma nota sobre um aplicativo interno da empresa, ilustrada por um mockup de uma mão segurando um celular. Dentro da tela, o aplicativo. Fora dela, a mão. Uma combinação bastante convencional, até onde eu sabia.
O problema eram os dedos. Só apareciam quatro pontas na imagem. O indicador estava
atrás, servindo de apoio ao aparelho.
Agora, olha a minha situação. Eu precisava explicar a uma pessoa adulta, numa relação profissional, em horário comercial, que um dedo pode continuar existindo mesmo quando não aparece numa foto. E precisava fazer isso com delicadeza. Tenta formular essa frase sem parecer que você está chamando a pessoa de idiota.
Levantei e fui buscar um café, procurando as vítimas do dia. Eu não ia viver aquilo sozinha, jamais!
Segura aqui um instantinho
Antes de responder, fui fazer um teste. Porque vai que, né? Vai que eu tinha passado a vida segurando o celular de uma forma ofensiva e ninguém teve coragem de me avisar.
Pedi a pessoas da agência que segurassem um aparelho, sem explicar o motivo. Esse detalhe era importante: se eu falasse dos dedos, a pessoa ia pensar nos dedos, ajeitar os dedos, apresentar os dedos. Eu queria que ela simplesmente pegasse o celular, para ter certeza de que eu não tinha pirado.
Passei por umas quinze pessoas. Enquanto elas seguravam, eu observava a mão. Imagino a confiança que transmiti. Você chega para trabalhar, uma colega pede que segure um telefone e fica examinando seus dedos em silêncio. Deve ser alguma campanha. Ou ela finalmente perdeu o juízo. Melhor colaborar.
De todas, só uma segurou de um jeito que mostrava as cinco pontas. Uma.
Eu havia localizado a única pessoa da agência com uma mão adequada às expectativas da cliente. As demais precisariam de ajustes.

Depois do teste, eu explicava a história. Todos me deram os pêsames antes de cair na gargalhada. Achei bonito esse cuidado com a ordem das coisas. Primeiro, o reconhecimento do sofrimento de uma colega. Depois, a diversão que ele proporcionava.
E eu ria também, claro. Estava puta, mas ria. Tem um tipo de absurdo que fica ainda melhor quando você precisa contá-lo em voz alta e percebe, no meio da explicação, que está mesmo discutindo a visibilidade de um dedo indicador.
A realidade podia colaborar um pouco
O teste não resolveu nada com a cliente, é bom frisar. Só me ajudou a ter certeza de que eu não estava maluca, o que já foi alguma coisa. Mas a imagem precisava ser trocada, ordem da coordenadoria da agência. Também era necessário pedir desculpas, fazer tudo com agilidade porque a newsletter já estava "atrasada" e garantir, por e-mail, que aquilo nunca mais aconteceria.
A parte do atraso me agrada especialmente. A peça estava aprovada desde sexta. Na segunda, a aprovação deixou de valer, a imagem virou um problema grifado em vermelho e o tempo necessário para trocar a imagem passou a ser uma demora nossa. Tudo isso sem que o relógio precisasse dar muitas voltas.
Não adiantava recuperar a aprovação anterior. Eu podia ter o e-mail, o mockup e uma pequena amostra da população brasileira segurando um celular. Continuava precisando abrir o arquivo e trocar a foto, além de convencer a designer a fazer o que devia ser feito. Porque designers têm seu orgulho.
Respira, Andi. Escolhe outra mão

A essa altura, o critério de seleção tinha ficado muito específico. A foto podia ser bonita, ter boa resolução, combinar com a peça e mostrar perfeitamente o aplicativo. Mas era melhor conferir os dedos, um por um, antes de se apegar.
Penso no tanto de atenção que aquela imagem recebeu. A notícia, o texto, o que o aplicativo fazia, se aquilo estava claro para quem fosse ler… nada disso estava em discussão. Estávamos todos ocupados com o dedo que não aparecia.
Até o indicador, coitado, estava trabalhando. Ele tinha nobre tarefa de sustentar o celular. Devia ter largado sua função e acenado para a câmera, para não comprometer a entrega.
Bom dia, Aninha!
Vou chamar a cliente de Aninha aqui. O diminutivo combina com a quantidade de carinho que coube na resposta.
Porque havia o que eu queria escrever:

E havia o que podia sair da agência:

Tudo bem COM VOCÊ. Veja a minha preocupação. Eu tinha acabado de percorrer a agência fazendo um censo de dedos, mas ainda havia espaço para saber como a Aninha estava.
Depois vinham as desculpas pelo transtorno, a informação de que a imagem havia sido substituída e a garantia de que aquilo não voltaria a acontecer. Tudo curto, gentil, prestativo. Com agradecimento pelo retorno e beijo no final.

É um trabalho escrever esse tipo de e-mail. Você vai tirando dele qualquer vestígio do que aconteceu até ficar parecendo que recebeu uma observação cuidadosa, identificou uma falha e ficou muito feliz pela oportunidade de melhorar. Quem lesse só a resposta encontraria uma relação ótima. Que troca querida entre essas duas profissionais.
Eu estava, inclusive, garantindo o futuro. Não bastava resolver a imagem daquela edição. Precisava assumir por escrito um compromisso com todos os próximos dedos pela eternidade.
Pronto. Garantido, Aninha. Nunca mais
E a newsletter pôde seguir, enfim, depois de receber os cuidados que lhe faltavam desde a aprovação de sexta.
Quanto ao teste, fiquei com uma dúvida que não tive a oportunidade de esclarecer: a pessoa que mostrou os cinco dedos segurava mesmo o celular daquele jeito ou desconfiou da minha cara e resolveu caprichar?
Se foi a segunda opção, perdi minha única candidata a substituir a foto.
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*Baseado numa experiência real.


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