Eu sabia escrever. A ficção não ficou impressionada

Atualizado: 8 de set.

Levei um ano e quatro meses para descobrir que décadas de jornalismo não me davam toda a vantagem que eu imaginava ao começar a escrever uma história inventada.
Algum benefício havia, claro. Eu sabia escrever. Só tinha feito uma pequena confusão sobre o tamanho dessa ajuda.
Não cheguei despreparada. Escrevia diários pessoais, passei por crônicas e reportagens, fiz uma quantidade de textos institucionais que não pretendo recuperar para conferir.
Até manual operacional entrou na conta, porque sempre chega o momento em que alguém olha para o jornalista e pensa que essa pessoa saberá explicar onde clicar.
Eu tinha prática de edição, sabia trabalhar com prazo e reconhecia quando um parágrafo estava fazendo hora extra. Achei que isso resolveria uma boa parte do livro. Ainda precisava construir a história, mas escrever era o que eu fazia, não era? Parecia razoável começar com alguma confiança.
As aproximadamente 1.254 versões seguintes foram ajustando essa expectativa. Inventei o número, já aviso. Perdi a conta faz tempo e escolhi uma quantidade que não ofendesse o trabalho realizado. O fato é que, mesmo que eu soubesse escrever há muitos anos, ainda estava aprendendo a escrever ficção.
A experiência profissional compareceu. Não resolveu.
O jornalismo ajudou e continua ajudando; vamos dar o peso certo a essa pequena parte. Eu sabia observar, procurar informação, perceber quando uma frase fazia pose para esconder que tinha pouco a dizer. A edição também estava ali. Só que, diante de uma cena, essas ferramentas não resolviam decisões que eu nem sabia que teria de tomar.
Uma informação podia ser importante para a história e não fazer sentido nenhum na cabeça do personagem naquele momento. Eu sabia dela. Ele talvez não soubesse, ou estivesse preocupado com outra coisa, ou tivesse entendido tudo errado. E lá estava eu tentando organizar o parágrafo para explicar justamente o que ele ainda não tinha condições de compreender.
Às vezes saía uma frase boa. Clara, bem escrita, dava até pena de apagar. Mas era minha, não cabia naquela percepção, além de ficar péssima no resultado. Eu tinha resolvido na redação uma confusão que precisava continuar existindo na cena.
Isso deu trabalho para entrar na minha cabeça. Passei tantos anos tentando deixar uma informação compreensível e agora precisava aceitar que, em certos trechos, a compreensão vinha depois. Ou nem vinha inteira. Não adiantava caprichar na explicação se, para colocá-la ali, eu tivesse de tirar o personagem do caminho.
E eu explicava depois também, por garantia. Ele fazia alguma coisa, a cena deixava perceber o que estava acontecendo, mas eu acrescentava uma frase para esclarecer o significado. Era um cuidado excessivo com o leitor, para dizer de um jeito simpático. Eu mostrava e depois chegava perto para perguntar se tinha visto.
Comecei a cortar essas frases meses mais tarde. Achei que tinha entendido, fiquei satisfeita com a descoberta e voltei ao texto. Havia outras. Algumas estavam em passagens que eu tinha acabado de revisar, o que me pareceu uma falta de consideração da minha parte comigo mesma.
O personagem começou a atrapalhar a redação. Ainda bem.
Escrever ficou mais interessante quando consegui me aproximar da voz de cada personagem. Antes, eu sabia o que precisava contar e procurava uma maneira eficiente de entregar aquilo. Ainda olhava muito de fora, mesmo quando achava que estava dentro da cena.
Só que personagem não tem compromisso com a eficiência da informação. Pode prestar atenção no detalhe errado, evitar o assunto que eu queria abordar e entender uma conversa de um jeito que vai dar problema lá na frente. Eu precisava deixar. Não sempre, não de qualquer maneira, mas precisava parar de corrigir a percepção dele como se estivesse editando uma matéria.
A sala deixou de pedir um inventário. Dependia de quem entrava, do que estava procurando, do que o incomodava. Outra pessoa perceberia coisas diferentes, e eu não precisava voltar para completar o que a primeira tinha deixado de ver. O móvel podia continuar existindo sem uma menção no livro. Foi bom descobrir isso; havia bastante mobília esperando atendimento.
Nos diálogos, demorei a largar as falas que resolviam o assunto. Eram compreensíveis, organizadas, às vezes até bonitas. O problema era justamente aquela disposição de todo mundo para conversar tão bem. Comecei a achar mais coisa quando alguém evitava responder, insistia num detalhe ou mudava de assunto num ponto incômodo. A conversa deixava de me ajudar tanto e ficava melhor.
Também tinha a liberdade, que era uma novidade enorme depois de tanto trabalho para os outros. Eu podia testar uma solução ruim, apagar vinte páginas e concluir que a primeira versão era melhor. Não havia cliente esperando o arquivo nem alguém perguntando se dava para deixar o personagem mais institucional. O prazo, quando existia, tinha sido inventado por mim e era tratado com a seriedade variável que isso permite.
Usei essa liberdade para revisar tudo um número indecente de vezes. Parar de contar foi uma tentativa de moderação. Não diminuiu as revisões, mas pelo menos deixou de gerar relatório.
O primeiro capítulo estava pronto. Eu é que continuei aprendendo.
Reler o que eu tinha considerado pronto foi instrutivo. Eu usaria outra palavra em alguns dias, mas vamos ficar com essa. Voltava ao primeiro capítulo meses depois e encontrava coisas que já não teria escrito daquele jeito. Só que tinha escrito. Estava lá, salvo por mim, provavelmente depois de uma revisão na qual achei que o texto tinha melhorado muito.
Os personagens explicavam uns aos outros assuntos que todos conheciam. Eles também colaboravam com a apresentação do universo, uma gentileza que eu não tinha o direito de exigir deles. Havia informações que, quando entraram, pareciam indispensáveis. Na releitura, eu me perguntava por que o leitor precisava saber daquilo antes de descobrir se alguém ia abrir a porta.
Mexia, achava uma saída e, algum tempo depois, encontrava outro problema. Às vezes, no mesmo lugar. Isso teria sido apenas desanimador se eu não começasse também a entender o que estava acontecendo. Antes, sentia que uma passagem não funcionava e trocava palavras. Melhorava uma frase, cortava outra, ficava olhando. O defeito podia não ter nada a ver com as palavras.
Fui aprendendo a distinguir uma cena quieta de uma cena que não saía do lugar. Nem sempre faltava movimento; às vezes, eu queria contar alguma coisa cedo demais, só porque gostava da informação e estava procurando onde enfiá-la. Em outras, o personagem dizia uma frase que soava bem, mas que ele jamais diria daquele jeito. Eu tinha encontrado alguém dentro do livro para falar por mim e ainda achava que era diálogo.
O texto melhorava, só que meu olhar também mudava e descobria mais coisas para corrigir. É uma recompensa meio torta. Você aprende o bastante para perceber que aquele capítulo, o mesmo que revisou até não aguentar mais, ainda precisa de trabalho.
A parte irritante é que eu gostei.
O livro começou como distração da rotina corporativa. Eu passava o dia escrevendo e resolvi descansar escrevendo, o que talvez merecesse alguma investigação. Mas fazia sentido, pelo menos para mim. Dessa vez, eu escolhia o que contar e podia seguir uma ideia sem explicar antes para quem ela seria útil.
Não sei quando passou a ocupar outro lugar. Fui me envolvendo com os personagens, tentando resolver coisas que ainda não sabia fazer, levando cenas comigo depois de fechar o computador. Uma conversa ficava voltando à cabeça. Eu mexia nela enquanto fazia outra coisa e encontrava uma saída longe do arquivo, bem na hora em que não tinha como anotar.
Terminava uma revisão cansada, convencida de que precisava deixar aquilo quieto. No dia seguinte, lembrava de mais alguma coisa e abria o documento. Reclamava bastante, também. Não gostaria que a disposição para continuar apagasse meu empenho nas reclamações.
Foi assim que deixou de ser só uma distração, acho. Eu queria aprender a fazer melhor, mesmo quando dava trabalho, e estava dando um trabalho que não tinha previsto. Já não bastava saber que uma cena estava ruim; eu queria entender por quê e descobrir o que fazer com ela. Quando conseguia, vinha uma satisfação que durava até a próxima leitura. Às vezes durava mais, não vou ser injusta.
Continuo usando muito do que aprendi antes. O olhar do jornalismo está no livro, assim como o hábito de editar e a atenção aos detalhes concretos. Não precisei jogar minha experiência fora para começar outra coisa. Precisei perceber onde ela ajudava e onde eu estava confiando nela para evitar um aprendizado novo.
Ainda me pego explicando o que não precisava. Corto quando percebo, encontro outras vezes depois. Está melhor do que no começo, o que já é alguma coisa, embora eu prefira não perguntar agora ao primeiro capítulo.
Quanto às 1.254 versões, vou manter o número. Se estiver errado, corrijo quando abrir o arquivo de novo.

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