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A borda puxou Miklis pelo capuz

Foto do escritor: Andi Rilen
Andi Rilen
11 de set.
5 min de leitura

Atualizado: há 5 dias

Ou como arrumei mais um personagem sem ter espaço nem para os que já tinha. 

 


Eu estava fazendo uma série de imagens para animar quando uma linha verde pegou Miklis pelo capuz. 


Dito assim, parece problema de renderização. Já tive tantos que seria uma hipótese razoável. Mas essa parte era proposital, juro. A borda do quadro se curvava para dentro, prendia a roupa e segurava o menino enquanto ele tentava seguir seu caminho, com aquela cara de quem certamente não tinha feito nada. 


A moldura, até então, tinha um serviço bastante modesto. Delimitar a imagem, pronto. Eu gosto de espaço vazio, de uma imagem transmitir uma ideia principal. Ninguém deveria precisar contratar um serviço de busca para localizar o personagem no meio de tanto elemento em volta. Uma linha verde sobre um fundo claro resolvia muita coisa. Pois a linha resolveu outras, sem me consultar se podia. 


Não bastou sair do livro 


Miklis se pendurou na parte de cima. Apoiou as botas na lateral para fazer uma bola de chiclete e montou um avião. Ele é uma criança, afinal, e faz dessas quando está entediado. Pensando bem, nem tão entediado assim… Eu apareci puxando uma ponta, ele puxando outra, e em algum momento estávamos os dois mexendo no próprio chão da imagem. 


A moldura também virou rede. Ali cabiam eu, o menino e a cachorra, que não parecia particularmente interessada na discussão sobre a natureza daquele objeto. Havia colo e onde dormir. A borda deixou até Felícia fazer xixi ali. Para ela, o projeto estava mais do que aprovado, só faltava trazer a ração. 


Eu olhava as cenas e pensava no trabalho que aquela borda já estava dando. Depois comecei a reparar no motivo de funcionarem. 


Miklis estava fazendo coisas que só eram possíveis porque aquele fundo existia daquela maneira. E, na cena do capuz, o fundo fazia uma coisa que ele provavelmente preferia que não fizesse. 


A diferença é pequena na descrição, mas o resultado muda bastante. 



Uma linha entortada ainda não é uma personalidade 


Preciso fazer essa ressalva antes de sair distribuindo certidão de nascimento para elementos gráficos. Se alguém se sentar na borda e ela ceder, vejo peso, elasticidade, apoio. Posso achar engraçado ou bonito sem concluir que a linha pensa, certo?


Quando a borda se estica para capturar um capuz, porém, a leitura é outra, pois aí ela tomou uma iniciativa. Já consigo suspeitar de uma intenção. Segurar o menino? Impedir que ele fuja? Devolver uma provocação? Vá saber. A imagem não precisa resolver a questão inteira; basta que ofereça uma ação para que a pergunta e a dúvida apareçam. 



Numa animação, esse detalhe pode ficar ainda mais claro. Se a linha se move junto com o corpo, pode ter sido arrastada. Se ela espera Miklis dar dois passos e só então o puxa de volta, a pausa vira parte da piada. A gente quase ouve um “aonde você pensa que vai?”. Quase. Eu não colocaria a fala, o capuz já está explicando bastante. 



O cenário entrou na conversa 


Na ficção, é fácil confundir um cenário cheio de personalidade com um cenário entulhado de descrição.  Dá para escrever uma sala abafada, ressentida, carregada de memórias, além de uma janela que parece saber demais. Eu provavelmente vou querer saber o que aquela janela viu. Gosto dessas coisas. Mas também quero entender o que acontece ali dentro e por quê. 


Uma sala estreita pode obrigar duas pessoas que acabaram de brigar a passar de lado, perto demais uma da outra. Uma porta emperrada pode interromper alguém de sair. A pessoa termina seu discurso, vira as costas para alguém e puxa a maçaneta. Não abre. Puxa de novo. E lá se foi um pedaço da dignidade.  


Com a borda, levei essa possibilidade para a brincadeira literal. Em vez de apenas delimitar o que o público vê, ela interfere no que Miklis consegue fazer, e o corpo dele precisa responder. 


Esse é um teste que me serve também na revisão do livro que estou escrevendo. Se eu trocar o lugar por um fundo neutro, o que se perde além da paisagem? 


Nem toda passagem precisa depender de uma porta emperrada, claro. O problema é quando construo um mundo inteiro e ninguém parece precisar morar nele. 

 


Ela implica, mas também segura 


O capuz é uma gag. Boa, espero. Só que não dá para construir uma série inteira com a borda puxando Miklis por partes diferentes da roupa. Quer dizer, dar dá. No terceiro episódio, eu mesma denunciaria a moldura. 



O que me interessa é descobrir como a mesma borda se comporta em relações diferentes. Ela pode resistir quando alguém a puxa, ceder, oferecer uma superfície para uma brincadeira e depois parecer arrependida da concessão que deu. 


Também não preciso transformar cada uma dessas possibilidades em prova de consciência. Algumas cenas mostram mais a criatividade de Miklis do que a vontade da borda. Isso também é útil: o objeto caracteriza quem o usa. 


Diante da mesma linha, alguém com certeza respeitaria o enquadramento. Miklis encontra um lugar para pendurar as pernas. E a linha que o segurava pela roupa agora se transforma em rede sustenta o corpo inteiro. A relação pode ganhar ternura sem que eu acrescente um rosto sorridente à moldura ou interrompa a história para anunciar uma reconciliação. 


Talvez a linha continue implicante. Só não vai deixar ninguém cair. Gosto mais dessa possibilidade do que de uma borda que fica boazinha depois de aprender uma lição. 



O perigo de dar vida a absolutamente tudo 


Há uma armadilha bem ao lado dessa ideia, esperando a gente se entusiasmar. Se o chão reclama, a xícara protesta, a porta se ofende, o vento sussurra e a luminária carrega um trauma de infância, em pouco tempo ninguém consegue tomar café em paz. Quando o ambiente passa a comentar todas as emoções do personagem, vira uma plateia invasiva e chata. 



Na série, a borda concentra a brincadeira. O fundo claro dá espaço para enxergar uma pequena curva, uma dobra, o ponto onde a linha decide sair do lugar. Não preciso preencher o resto. Na verdade, preencher demais esconderia justamente o que interessa. 


E ela pode ficar quieta. Se a borda se mexer o tempo inteiro, o movimento dela vira o seu estado normal. Já uma linha que permanece comportada enquanto Miklis prepara algo oferece tempo para a suspeita. Será que ela vai deixar? 


O público começa a esperar uma resposta. A personalidade está se formando ali, nessa expectativa, antes mesmo do próximo puxão. 


 

Fui arrumar uma moldura 


A brincadeira me deixou uma pergunta de edição mais útil do que “meu cenário está bem descrito?”. O que meus personagens fazem com o lugar onde estão? E o que esse lugar permite, atrapalha ou devolve a cada um deles? Às vezes, basta tirar uma frase explicativa e deixar que alguém dispute espaço numa escada. 


A série começou porque achei graça em uma borda sem paciência nenhuma para Miklis, e essa mesma graça precisa continuar funcionando para quem nunca quis saber como um cenário participa de uma narrativa. Se a pessoa rir do capuz, já está valendo. 


Quanto a mim, fiquei com mais um integrante no elenco e uma dúvida sobre o projeto gráfico. Ainda posso chamar de margem de segurança uma coisa que agarra alguém pela roupa? 


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