O caos, os primos e o método - um ensaio sobre criação

Atualizado: 11 de set.
Eu queria fazer algumas imagens dos personagens dos meus livros. Acabei discutindo lateralidade, organizando referências e negando parentesco a uma quantidade considerável de meninos de cabelo branco.

Eu não estava tentando descobrir como Miklis parecia. Esse talvez tenha sido o primeiro problema.
Ele já existia havia bastante tempo. Eu o tinha escrito por centenas de páginas, imaginado em cenas diferentes, acompanhado em situações nas quais nem ele e nem eu gostaríamos de estar. Sabia o cabelo, os olhos, as orelhas, o jeito como sorria ou ficava sério. Sabia que era canhoto e que a marca dourada ficava no pulso esquerdo. Algumas dessas coisas pareciam óbvias demais para precisar de tanta explicação.
Então comecei a gerar imagens. Vieram meninos de cabelo branco, olhos verdes e orelhas pontudas. Alguns eram ótimos. Outros tinham personalidade própria, parentes, documentação e talvez uma carreira promissora em outra história. Eu até poderia gostar deles, se não estivesse procurando uma pessoa específica.
Em algum momento comecei a chamá-los de primos.
O apelido ajudava a lidar com a frustração. Resolver, não resolvia. Eu ainda precisava entender por que uma descrição aparentemente específica produzia tanta gente diferente. E por que, depois de finalmente acertar alguma coisa, a imagem seguinte achava que podíamos discutir aquilo de novo.
Meu plano era fazer algumas imagens dos personagens. Não previa organizar a família inteira toda vez.
Eu sabia quem estava procurando
Se eu estivesse criando um personagem a partir das imagens, haveria bastante espaço para experimentar. Poderia pedir um menino alienígena, receber dez versões e escolher a terceira porque gostei do nariz. Ou mudar de ideia sobre o cabelo. A geração participaria dessa descoberta e eu ficaria bem mais tranquila.
Com Miklis, uma parte das decisões já tinha sido tomada durante a escrita, embora eu nunca tivesse precisado desenhá-las. Bem, eu tentei, mas deixemos assim…
Esse detalhe complica um pouco as coisas. No livro, não preciso informar o ângulo do maxilar nem explicar exatamente como o cabelo cai sobre a testa. Já uma imagem deve resolver tudo isso e mais um pouco. E eu vou olhar o resultado tendo como referência um menino que existe na minha cabeça, em cenas que o modelo nunca viu. Uma referência bastante inconveniente de fornecer, vamos combinar.
Às vezes, eu conseguia apontar o erro: rosto redondo demais, olhos escuros, orelhas exageradas. O cabelo tinha virado um capacete. Em outras, ficava olhando para uma imagem bonita, com todos os itens da descrição, tentando explicar por que aquele ainda não era ele.
Também não vou fingir que tudo estava definido desde o início. A exploração ajudou. Algumas soluções apareceram nas gerações e ficaram; outras me fizeram perceber o que eu não queria de jeito nenhum. Traduzir um personagem para uma imagem exigiu escolhas que a prosa nunca tinha me cobrado. O problema era continuar fazendo essas escolhas depois de já tê-las feito.
“Menino de onze anos, pele pálida, cabelo branco curto, olhos verdes e orelhas levemente pontudas” descrevia Miklis. Descrevia também todos os primos e provavelmente alguns vizinhos.
Eu precisava guardar o que tinha aprovado de um jeito mais útil do que “aquele rosto de umas vinte imagens atrás, lembra?”.
A prancha e o problema dos pulsos

A prancha começou como uma ficha visual: rosto, perfil, corpo, expressões, roupas, paleta. Um lugar para reunir as decisões que estavam espalhadas pelas tentativas. Com o tempo, ganhou certa autoridade dentro de casa.
A marca de Miklis explica bem por quê. São duas linhas douradas entrelaçadas, planas sobre a pele, no pulso esquerdo. O brilho pode variar. Ela não é um bracelete, não tem relevo metálico e não deveria passear pelo corpo. Parecia administrável, até descobrir do pior jeito possível que os geradores de imagem têm dificuldade em entender o que significa direita e esquerda.
Nas gerações, a marca podia mudar de pulso, aparecer nos dois, ganhar outro desenho ou virar uma joia. Às vezes ficava certa, mas Miklis usava a mão direita para escrever. Eu pedia a correção e recebia outro problema.

Em uma das tentativas, ele apareceu escrevendo com as duas mãos. Aconteceu. O menino tem habilidades, mas essa eu não conhecia.
Foi assim que detalhes aparentemente pequenos começaram a ocupar espaço na prancha. Não por uma vontade de catalogar cada centímetro do personagem, mas porque eu já tinha gastado tempo demais corrigindo as mesmas coisas.
A referência aprovada passou a decidir as divergências. Se uma nova imagem trouxesse outra marca, outro rosto ou outra proporção, eu tinha onde conferir. Não precisava reabrir a discussão só porque a novidade estava bonita.

Depois fiz o mesmo com Andi e Felícia, cada uma com as suas particularidades. Quem conhece a própria cachorra sabe o tamanho do desaforo que pode caber numa imagem de uma cachorra quase igual.
Muito bonito. Agora tenta pegar alguma coisa.
Na prancha, o personagem costuma colaborar. Fica de frente, de perfil, em três-quartos, sob uma luz que permite enxergar o que interessa. Até as expressões estão ali para serem examinadas.

Mas, nas cenas, eu precisava que Miklis fizesse coisas. Que pegasse um objeto, se inclinasse, sentasse, virasse o corpo. Que Andi aparecesse em outros ambientes. Que Felícia se movimentasse ou inventasse alguma ocupação incompatível com a paz doméstica.
Comecei a testar essas situações. Queria ver se reconheceria os três quando já não estivessem tão convenientemente posicionados para uma ficha.
Alguns problemas só apareceram aí. Uma proporção funcionava de frente, mas ficava estranha em outro ângulo. O cabelo perdia a textura. Um braço cruzava o corpo e a marca aproveitava a confusão para mudar de endereço.
A lateralidade me obrigou a pensar melhor nas poses. Eu repetia “MIKLIS É CANHOTO” como quem informa a cor dos olhos. Só que, numa cena, essa informação precisa aparecer em alguma ação. Qual mão segura o objeto? O que a outra está fazendo?
Como ele está virado para a câmera?

Para uma imagem dele escrevendo, passei a descrever a mão esquerda executando a ação e a posição da direita. Se a marca precisasse aparecer, a pose também teria que permitir isso. Não adiantava exigir um pulso visível e pedir uma posição que o escondia.
Eu tinha saído da descrição do personagem e estava quase dirigindo seus movimentos. Ainda assim, nem sempre funcionava. Pelo menos comecei a reconhecer quando o próprio pedido estava dificultando a vida.
Depois de testar cenários, luz e ações diferentes, achei que as identidades estavam razoavelmente firmes. Foi quando coloquei mais de um personagem na mesma imagem.
Os primos voltam para uma visita
Miklis sozinho estava funcionando. Andi também. Felícia também. Juntei os três e algumas decisões voltaram à mesa sem que ninguém me consultasse.
A cabeça de Miklis aumentava, o cabelo perdia definição, o rosto ficava mais genérico, numa idade diferente ou com traço aleatório. Nem vou comentar das tentativas live action. A marca, naturalmente, tinha seus próprios compromissos.

Minha impressão era de que a composição mais exigente abria espaço para esses desvios. Além de representar cada um, a imagem precisava resolver o tamanho deles em relação aos outros, a perspectiva, os corpos se sobrepondo, os olhares, a interação. Eu acertava uma coisa e percebia que outra tinha escapado.
Passei a chamar isso, para mim, de “custo de composição”. Foi um nome útil para organizar o que eu via nas tentativas, embora não explique o funcionamento do modelo.
A consequência era bem concreta: aprovar um personagem sozinho não encerrava o trabalho. Eu precisava conferir de novo quando ele entrava numa cena com os outros.
E, sim, alguns primos tentaram se aproveitar da movimentação para voltar.
Mais instruções. Só mais estas. Agora vai.
Minha primeira reação foi aumentar o prompt. Se a mão vinha errada, eu reforçava a mão. Se a marca mudava, detalhava a marca. Acrescentava negativas, repetia características, explicava de outro jeito. Em alguns momentos, o pedido de uma imagem simples já tinha adquirido o volume de uma pequena disputa contratual.
Isso ajudava, mas não impedia as regressões. Uma correção da mão podia alterar a pose. Pedir mais destaque para a marca produzia um braço numa posição esquisita. Eu mudava o enquadramento e perdia justamente a parte do corpo que precisava conferir.

Além disso, havia uma diferença entre ter uma prancha e garantir que ela fosse consultada. Não bastava a referência existir em algum ponto da conversa. Ela precisava entrar de fato no trabalho daquela geração.
Comecei a organizar um protocolo com o que antes ficava espalhado: qual era a referência aprovada, o que precisava ser preservado, quais detalhes aquela cena exigia, o que conferir depois.
A regra que mais me poupou irritação foi também uma das menos empolgantes: mexeu na imagem, confere tudo de novo. Eu queria acreditar que corrigir um pulso manteria o rosto intacto. Depois de algumas experiências, achei melhor olhar.
O processo passou a ter uma rotina. Consultar a prancha, definir a cena, pensar na posição dos corpos e dos objetos, gerar, comparar. Às vezes a imagem entrava. Às vezes precisava de outra tentativa. Outras iam para o descarte, porque insistir também tem um limite — embora eu nem sempre perceba esse limite na hora certa.
O prompt continuava ali, evidentemente. Só já não carregava sozinho a expectativa de resolver a continuidade inteira.
A parte chata de descartar uma imagem bonita
Algumas imagens erradas eram ótimas. Essa parte merece ser dita porque descartar uma geração feia não exige grande firmeza de caráter. Havia luz bonita, composição interessante, uma expressão de que eu gostava. Eu queria aproveitar.

Mas Miklis parecia mais novo, estava destro ou tinha um rosto que se afastava do aprovado. Podia ser uma boa ilustração de outro menino. Para o projeto, ainda havia um problema.
Precisei aprender a olhar essas coisas separadamente. Gostar da imagem não significava que ela servia. Preservar o rosto também não bastava se a pose estivesse ruim ou a cena não tivesse graça nenhuma.
Isso afetou a escolha das referências seguintes. Uma imagem com um erro importante não podia ganhar autoridade só porque eu tinha gostado da iluminação. Se a usasse para gerar outra, corria o risco de carregar junto o rosto mais infantil, a proporção diferente, a marca trocada.
Passei a distinguir o que cada referência podia oferecer. A prancha decidia a identidade. Outra imagem podia ajudar com o ambiente, a roupa, uma expressão, desde que eu deixasse claro o que estava aproveitando dela.
Os primos continuaram existindo. Só perderam o direito de voto.
E Miklis faria isso?
Ainda falta uma conferência que nenhuma paleta resolve. Posso acertar o cabelo, os olhos, o rosto, a idade e até o bendito pulso esquerdo, e a imagem continuar estranha porque Miklis não faria aquilo daquele jeito.

Uma expressão pode endurecê-lo demais. Um gesto pode não combinar com ele. Numa interação, os personagens podem parecer perfeitamente corretos e não ter nada da relação que existe entre eles.
Essa é a camada que quero trabalhar melhor agora. Os testes visuais ajudaram a estabilizar a aparência; preciso aproximar as cenas do comportamento de cada um, das relações, do humor. Há diferenças entre um sorriso possível naquele rosto e um sorriso que eu reconheço naquele personagem.
Para conferir isso, volto aos livros. É onde encontro como ele reage, do que se aproxima, o que tenta esconder. A prancha ajuda muito, mas não acompanhou as centenas de páginas anteriores.
No começo, eu achava que uma descrição suficientemente boa traria o mesmo Miklis de volta. Fui acumulando prompts, imagens, correções e parentes até entender quanto trabalho havia entre uma geração e a seguinte.
Hoje tenho referências melhores e um jeito de conferir o resultado. Ainda preciso corrigir coisas que julgava resolvidas, ainda me encanto com uma imagem inadequada, ainda gasto mais tempo do que pretendia em certos detalhes. Não gostaria de calcular quanto desse tempo pertence ao pulso esquerdo.
Mas já consigo aproveitar decisões anteriores sem começar tudo de novo. E isso abriu espaço para me preocupar com as cenas que quero fazer, em vez de passar a tarde inteira tentando recuperar o menino que tinha aparecido na véspera.
De vez em quando chega um primo novo. Alguns são bonitos, admito.
Guardo a imagem. Vai que um dia precisam de figurante.
Da prancha à cena
Roteiro de referência visual e protocolo de geração


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